Evento do Direitos Já! reuniu lideranças políticas e intelectuais para discutir a resiliência das instituições diante do avanço do autoritarismo global
SÃO PAULO — “O jogo está aberto e o Brasil é peça-chave”. Com este alerta sobre a vulnerabilidade das democracias modernas, o cientista político Sergio Fausto aqueceu, no último dia 13 de abril, o debate que deu início às comemorações dos 52 anos da Revolução dos Cravos na Casa de Portugal, em São Paulo. O encontro, realizado pelo Direitos Já! Fórum pela Democracia em parceria com a instituição portuguesa, serviu como um termômetro sobre o atual cenário político brasileiro em meio a uma crise democrática internacional.
Para Fausto, superintendente da Fundação FHC, o mundo vive uma nítida "reversão da onda democrática" que teve seu auge a partir da década de 1970. Segundo ele, a proteção do Estado de Direito exige um pragmatismo novo: a construção de alianças transversais, que unam desde a centro-direita até a centro-esquerda, como contraponto a um ambiente externo cada vez mais alinhado a governos autocráticos
O legado do 25 de Abril
A Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de abril de 1974, é o ponto central da reflexão. O movimento, que pôs fim à longa ditadura de Oliveira Salazar em Portugal sem disparar um único tiro, tornou-se o símbolo mundial da resistência pacífica. Fernando Guimarães, coordenador do Direitos Já!, e Renato Afonso, presidente da Casa de Portugal, lembraram que o impacto histórico da revolução foi muito além da Europa, servindo de estopim para processos de redemocratização em diversas nações, incluindo o Brasil.
O debate relembrou ainda a consolidação da social-democracia portuguesa no pós-revolução, capitaneada por figuras como Mário Soares, e a importância de celebrar, em 2026, os 50 anos da Constituição do país.
Representatividade e memória O evento deu voz a diferentes frentes de resistência. A deputada federal Sonia Guajajara traçou um paralelo entre a luta histórica pela liberdade em Portugal e a batalha contemporânea dos povos indígenas pelo direito à terra e ao reconhecimento de sua existência. Já a deputada federal Juliana Cardoso destacou que a manutenção da democracia no Brasil depende da ocupação constante dos espaços políticos e da mobilização popular.
Um dos momentos de maior emoção foi o depoimento da professora Luisa Moura, do Centro Cultural 25 de Abril. Ela fez uma crítica severa à política externa do atual governo português, questionando a parceria com os Estados Unidos em conflitos no Oriente Médio, que, segundo ela, contradiz o espírito pacifista da revolução. “Precisamos de uma Revolução dos Cravos em cada país do mundo”, declarou.
Celebração e união
A noite foi encerrada com um tom solene e cultural. O jornalista e poeta Sergio Correa Vaz homenageou a data com uma declamação autoral, seguida por uma interpretação coletiva de “Grândola, Vila Morena”, o hino da revolução, entoado pelos presentes.
O evento reuniu uma audiência de peso, contando com a presença de figuras históricas da política brasileira, como a ex-senadora Eva Blay, o ex-senador José Aníbal, o ex-deputado Airton Soares, o ex-secretário Belisário dos Santos Jr. e o ex-vereador Daniel Annenberg, além de representantes do Judiciário e da academia, como o diretor da Fipe, Carlos Antônio Luque.
O ato reforçou o papel do Direitos Já!, movimento da sociedade civil que hoje articula mais de 10 mil cidadãos em uma frente suprapartidária pela defesa da Constituição Cidadã e da qualidade democrática no país.